quinta-feira, 19 de setembro de 2024

A MULHER QUE NÃO PEIDAVA

 

                                NIVALDO MELO

1
Essa é mais uma história
Contada por mina avó
É algo bem inusitado
Merece análise maior
Como pode um ser vivente
Ser assim tão diferente
Pensem, num quiproquó!

2
A mulher que não peidava
Não era assim diferente
Tinha olhos, tinha orelhas
E tinha todos os dentes
Tinha os cabelos compridos
E lábios bem definidos
Era gente como a gente.

3
Uma mulher brasileira
Nascida no interior
Criada no meio do mato
Era cheia de pudor
Cheinha de timidez
E garantia pra vocês
Dizendo nunca peidou.

4
Mas, como pode vovó,
Viver sem soltar um pum?
- Eu não sei lhes explicar
Não tem em livro nenhum
Um doutor lá da cidade
Com sua capacidade
Disse ser algo incomum.

5
Não é possível pessoal
Isto em um ser vivente
Peida o pai, peida a mãe
Peida o pastor que é crente
Até o Papa na sistina
Peida dentro da batina
Só pra peidar diferente.

6
Com certeza eu te afirmo
Ninguém vive sem peidar
É coisa da natureza
Eu duvido alguém negar
Se peida a noite e ao dia
João peidou, gritou Maria
Corre se não vãs cagar.

7
Mas tudo naquela mulher
Era bem fácil de notar
Tinha as pernas cangalha
Apenas para dificultar
A saidinha do pum
Difícil pra qual quer um
As duas popas afastar.

8
A bunda daquela senhora
Era muito avantajada
Até lhe deram apelido
De mulher carga pesada
Era algo muito estranho
Bunda daquele tamanho
Merecia uma palmada.

9
Tem que ter algum segredo
Dessa mulher não peidar
Fui perguntar ao marido
Só pra ele me explicar
- Desculpe meu camarada,
Sua esposa é tapada?
Ele disse; eu vou contar.

10
Sou casado há 20 anos
Dormimos na mesma cama
Há todo momento ela diz
E afirma que me ama
Mas quando eu falo de pum
Fica brava e de lundum
Até de corno me chama.

11
Imagine meu caro amigo
Eu sou um cara peidão
E eu faço sem ter medo
De provocar confusão
Mas um dia por malícia
Peidei na frente da policia
Me botaram na prisão.

12
Te digo, minha esposa
Nunca peidou para mim
Já pedi, só um peidinho!
Que vou fazer um festim
Ela ficou foi emburrada
E quis partir pra porrada
Passou três dias assim.

13
Até os animais soltam peido
Quem não peida é manequim
Eu acho que não existe
No mundo outra assim
Só pra peidar é fechada
Acho isso uma cagada
Peida aqui, fede em Pequim.

14
O peido lá no meio médico
Eles chamam flatulência
Eles chamam peido assim
Apenas pela decência
Nascem de gases metanos
Expelido só pelo anus
De cheiro cheio de essência.

15
Essência de peixe podre
De carniça de defunto
Mas tem peido até cheiroso
Com cheirinho de presunto
Tem gente que até engarrafa
E outras que só abafa
E gostam que soltem junto.

16
Ouçam o que a dita cuja
Revelou para uma amiga.
É que segurava o peido
Só pra provocar entriga
Dessa forma acostumou
E o seu bocal se fechou
Lá no final da barriga.,

17
A amiga muito espantada
Como você prende o vento?
Ela respondeu sem medo
É questão de treinamento
Eu mantenho bem fechado
O meu anel corrugado
Somente pra o flatulento.,

18
Como podes ser feliz?
Perguntou a sua amiga
- Saiba que a felicidade
Tem nada a ver com a barriga
Quem não peida é feliz
Pois não deixa cicatriz
E nem provoca ferida.,

19
Vou te falar uma coisa
De dentro do coração
Eu fico só meditado
Porque essa preocupação
Nada disso me incomoda
As vezes falo; é foda
Parem com essa aflição.,

20
Por que tantos se incomodam
Se solto peido ou não?
Se tenho prisão de ventre
Pra que tanta confusão.
Até o vigário Nestor
Se reuniu com o pastor
Me puseram em confissão.,

21
Então eu fui obrigada
A sair de minha linha
Deixei o respeito de lado
E parti logo pra a rinha
“Faz que conta que ninguém viu
Vão pras putas que os pariu
Vocês são ervas daninhas”

22
O meu orifício é tímido
E merece todo respeito
Nada vocês têm com isso
E não é nenhum defeito
Por que vocês, dois viados
Se sentem incomodados?
Isso é demais, não aceito.

23
só falta os dois se unirem
Pra falar com o delegado
Isso é mesmo de vocês
que são dois cabras safados
Os dois são muito escrotos
Especular o cu dos outros
Além de feio é pecado.

24
- Padre e Pastor que fizeram?
Ficaram os dois, bem calados
Viram que estavam errados
De terem me provocado
Pediram pra mim desculpas
E os dois filhos das putas
Saíram dali bem arretados.

25
E tem mais, minha amiga
Meu marido me perguntou
O que tinha acontecido
Comigo o padre e o pastor
Eu contei pra ele o fato
Ele pensou ser boato
E assim pra mim falou.

26
Estou contigo minha esposa
Nada por baixo dos panos
Ninguém tem nada com isso
Nem com você ou seu anus
Isto é de gente pequena
Aquela que envenena
Depois dizem; foi engano.

27
Mas a mulher que não peidava
Famosa estava ficando
A sua fama foi crescendo
Aos pouco se espalhando
Logo, logo ela chegou
Aos confins do exterior
Mas ela nem se importando.

28
Coisa boa é ser famoso
Falava assim seu marido
Por mais que seja discreto
Nada seu fica escondido
Se torna logo um artista
Sai em capas de revista
Onde passa é aplaudido.

29
Tem até quem se aproveita
Dessa fama repentina
Arruma um empresário
Só pra se achar muito fina
E sem nenhum desespero
Enche os bolsos de dinheiro
E se transforma em mufina.

30
E quando a fama lhe sobe
Direto para a cabeça
Abandona velhos amigos
já pensa que é condessa
E se você um dia precisar.
De alguém pra desabafar
Se for com ela; esqueça.

31
Mas nada disso aconteceu
Com a mulher que não peidava
A sua fama so crescia
Mas ela sempre falava
Estou fora meu amigo
Essa fama é um perigo
fica melhor como estava.

32
Um dia ela foi chamada
Pra fazer uma palestra
De primeira recusou
Dizendo, isso não presta
Eu não preciso de fama
Ainda não estou na lama
Sou uma pessoa honesta 

33
Mas sua fama aumentava
Na Itália, França e Alemanha,
Dizem que  ela alcançou
na casa da mãe de Pantanha
Que fica no fim do destino
Do folclore nordestino
Quem é de lá não estranha.

34
Falam que quem não peida
Nas tripas pode dar um nó
Aos pouco ela se definha
E afina como um cipó
Se transforma em fumaça
Perde logo a carapaça
Apela para o catimbó.

35
Mas aquela mulher tapada
Se comportava bem diferente
Por onde passava era brilho
Igual estrela cadente
E quem de fato a conhecia
Quando avistava aplaudia
Deixando-a muito contente.

36
Mas um dia e de repente
Algo começa a mudar
Pois o doutor Meropeu
Começou a contestar
Eu não consigo dar fé 
Nem acreditar em mulher
Que não consegue peidar.

37
Mandou buscar Mari Cleusa
É assim que ela se chama
Pra se tornar voluntária
Numa pesquisa bacana
Era apenas pra provar
Que mesmo sem estimular
Ela vai perder a fama.

38
Disse a nossa Mari Cleusa
Ser voluntária; jamais
só vou se tiver cachê
Já tenho fama demais
Coisa de graça não presta
Nem mesmo injeção na testa
Não sou besta, meu rapas.

39
As coisas praquela senhora
Tava ficando complicado
Então o doutor Meropeu
Apelou pra o delegado
Que disse; não me condis
Vá se entender com o Juiz
Que sabe o certo e o errado.

40
Ele tomou por pirraça
Aquele caso incomum
Teria que solucionar
Sem que causasse zum, zum
Mas o Juiz disse no entanto
Procure uma mãe de santo
Que seja filha de Ogum.

41
Mas nem nos arredores
Havia culto africano
Nem mesmo um centro espirita
Iria bolar outro plano
E foi falar com o vigário
Que disse não ser otário
Saia senão lhe esgano.

42
Então o doutor Meropeu
Entrou foi em depressão
Passava os dias chorando
Olhando sempre para oi chão
Uns diziam ser quizumba
Outros falavam macumba
Alguem comprou um caixão.

43
Duas semanas depois
O doutor foi enterrado
Junto do corpo encontraram
Em um bilhete grafado
Morro sem aquele xero
De um peido sem tempero
Nem que fosse engarrafado.

44
Com aquele fato acorrido
Sem nenhuma explicação
Houve um grande vuco-vuco
Foi mesmo uma confusão
O velho Padre Pompeu
Quase que virou ateu
Mas a Deus pediu perdão.

45
Mas como em todo lugar
Existe alguém de bom senso
uma velha e bondosa beata
Deixa o problema em suspendo
Bateu com força na mesa
E falar com a maior clareza
Vou dizer tudo que penso.

46
A senhora Mari Cleusa
Garanto que não ser tapada 
Devido ser muito tímida
Ela só peida trancada
Em um local que é só seu
Lhe digo, padre Pompeu
Ela peida é na privada.

47
E vou lhes dar a certeza 
Isso não é nada ruim
Vou revelar meu segredo
Eu também precedo assim
Só meu marido sabe disso
Comigo tem compromisso
Só flatulo em meu camarim.

48
Mas a bondosa senhora
Apenas para amenizar
Inventou aquela estória
pra Mari Cleusa se safar
De toda aquela fofoca
Que um boato provoca
Contado em mesa de bar.

49
Dessa forma se aproximou
dá Mari Cleusa amiga
Falou pra ela baixinho
Vamos acabar com a entriga
Temos que falar a verdade
Te peço por caridade
Pois peidar é coisa antiga.

50
Deve existir algum médico
Que seja um especialista
Em matéria de flatulência
E que não seja golpista
Vamos sair pra procura
Só voltamos se encontrar
Um doutor Psicologista.

51
Mas Mari Cleusa se irritou
Com toda aquela baboseira
Não tem médico Peidologista
Mesmo que só você queira
E não vou levantar minha saia
Apenas para servir de cobaia
E expor minha traseira.

52
Eu já tenho a solução
Vou resolver a parada
Vocês vão se surpreender
Vai ser nessa madrugada
Vou dar o grito de liberdade
Acordarei toda cidade
A coisa vai ser revelada.

53
Contratou um trio elétrico
E foi para o meio da praça
Gritou no tom mais alto
Hoje aqui vai ter desgraça
Quero todos reunidos
Ninguém fica escondido
Vai ser um evento massa.

54
Começou o seu discurso
Gritando em alto e bom tom
Pessoal eu tenho um cu
Garanto-lhes; é muito bom
Mas por questão de educação
Eu imponho restrição
Tenho isto como um dom.

55
se é peido que vocês querem
São peido que vocês terão
Liberarei agora o primeiro
Sobre esse caminhão
- E com um gesto tresloucado
Põe o fone bem no rabo
Soltou aquele trovão.

56
Foi uma zuada tremenda
Que abalou toda cidade
Apagaram-se as luzes
Por falta de eletricidade
Quem dormia, acordou
E com o medo se cagou
Ela gritou - LIBERDADE!

57
E a Mari Cleusa passou
O dia inteiro peidando
Em cima do trio elétrico
Pela cidade rodando
Parou no meio da rua
Tira a roupa, fica nua
Pra ela, estava brincando.

58
Da nudez ninguém se importou
Por ser um fato bem normal
Porque foi em pleno domingo
Que abria o nosso carnaval
Ninguém ali sentia tristeza
Pois os peidos de Mari Cleusa
Era de uma orquestra genial.

59
Fizeram um grande painel
Na entrada da cidade
SEJAM BEM VINDO A JEGUEPUBI
PODEM PEIDAR A VOTADE
AQUI PEIDAR É NORMAL
LIBEREM O VELHO BOCAL
SINTAM-SE BEM A VONTADE.

60.
E no calendário turístico
Criaram um grande evento´
Concurso de flatulência
Cujo prêmio é um jumento
Para o segundo colocado
Ganha um peido engarrafado
Das freirinhas do convento.




1

Ess

O REINO DA BOA ESPERANÇA

 


                                            NIVALDO MELO


1
Essa é mais uma história
Contada por minha avó
Ela sempre diz pra gente,
Que é do tempo do rococó
Que foi no século dezoito
Tempo do artista afoito
Período da arte maior.

2
Quase todos as histórias
Falam sempre dessa data
Quem sabe contar os fatos
Conta sem medo e com raça
Aqui sempre foi assim
Podem perguntar pra mim
Que respondo sem bravata.

3
Mas vamos ao que interessa
Que é a história da vovó
Essa se passou lá na França
Que é bonita como ela só
A história de uma princesa
Que sempre esteve presa
Para morrer no caritó.

4
Toda história começou
No centro de uma floresta
Onde morava um casal
Daqueles que o povo detesta
Não falavam com ninguém
Demonstravam ter desdém
Falavam; eles não prestam.

5
Só apareciam na cidade
Apenas uma vez por mês
Acompanhados por um cão
Diziam: Chegaram os três
Todos saiam da cidade
Porque chegou a maldade
Fujam todos de uma vez.

6
O casal se importava muito
Com os comentários em geral
E quase sempre choravam.
Mas lá no mercado local
Eles tinham um bom amigo
Que os abrigava do perigo
E achava-os bem legal.

7
Contavam, os mais antigos
Que eles eram abastados
Viviam quase como Reis
Em um lugar reservado
Mas esbanjavam avareza
Apesar de ter riqueza
Por todos eram desprezados.

8
Contam que aquele casal
Que tinham apenas um filho
Mantinham o garoto preso
Para anular o gatilho
Da premonição da bruxa má
A que veio só pra prejudicar
E mantê-los no exilio;

9
Todo começou desse jeito
E aconteceu bem assim
- Um dia aparece na casa
Uma bruxa muito ruim
Pediu pra eles um abrigo
Sem darem conta do perigo
Eles dissertam que sim.

10
Puseram a velha pra dormir
Numa esteira, no porão
A bruxa pra eles olhou
E fez sinal com a mão
Ela devolve a esteira
Desceu a escada inteira
E foi dormir bem no chão.

11
Então a velha se ajoelhou
E fez uma prece assim
Este casal avarento
Estão zombando de mim
Vou prepara um enredo
Para deixá-los com medo
Com principio meio e fim.

12
Naquela noite fatídica
Bem antes da madrugada
Ventava e fazia frio
A casa toda acordada
Algo estranho acontecia
Só uma frase se ouvia
Missão cumprida, acabada.

13
Então o casal se levanta
E bruxa queria fugir
Eles puxam a vassoura
E viram a velha cair
Ela ficou muito irada
E disse dando rizadas
Me forçam a agir assim.

14
Aconteceu um estrondo
Naquele exato momento
O tempo ficou diferente
Parou o frio e o vento
Apagaram-se as lamparinas
E caiu uma expeça neblina
Ali começa o tormento.

15
A bruxa então esbraveja
Tudo acontecerá assim
Vocês vão gerar um filho
Que vai ter um gênio ruim
Ao completar a maior idade
Trará consigo a calamidade
Que marcará o seu fim.

16
Vocês vão ter que mantê-lo
Sempre preso e vigiado
Contatarão uma ama
Para estar sempre ao seu lado
Ela o criará como tutora
Será mãe e professora
Por ela será educado.

17
Da próxima vez que alguém
Solicitar-lhes um abrigo
Se derem de bom coração
Se livrarão desse castigo
Guardem isso em segredo
E podem ficar sem medo
Não façam como comigo.

18
Pegou de novo seu veículo
Montou no mesmo e partiu
Apenas um forte apito
Foi tudo que se ouviu
O casal ficou abalado
Um tanto acabrunhado
Ali ninguém mais sorriu.

19
Com pouco tempo depois 
E mulher engravidou
E sete meses depois
A crianças aflorou
Parecia, mas um cravo
Mas seria um escravo
Do mal que a bruxa deixou.

20
Da forma que a bruxa disse 
O primogênito seria criado
Contrataram uma jovem
Para ficar ao seu lado
Seria uma mãe tutora
Confidente e professora
Até o momento chegado.

21
Em uma cidade bem distante
No reino das carochinhas
De rostinho aveludado
Nascia uma princesinha
Seus pais quase desmaiaram 
Quando pra ela olharam
Era feia a menininha.

22
Cheia de manchas vermelhas
Do rosto até o pescoço
Sem cabelos na cabeça
Mas no centro tinha um osso
Pense num bebê horrível
Podermos dizer terrível
Com jeito de bode mocho.

23
Seus pais logo determinaram
Vamos mantê-la escondida
Esperemos alguns meses
Pra ver se saram as feridas
Se isso não acontecer
Vamos ter que a manter
Presa na torre perdida.

24
Contrataram uma pessoa
Pra ser uma mãe tutora
escolheram uma poliglota
Pra ser sua professora
Quero que nossa filhinha
Seja a futura Rainha
A mais feia. Mas sedutora.

25
Nós vamos ter que escondê-la
Pra todo de nosso reinado
E guardar esse segredo
Quem sabe fica calado
E se um dia alguém falar
Esse vai ter que pagar
Será preso e enforcado.

26
Prometeram uma fortuna
Para a jovem mãe tutora
Deram terras e dinheiro
Pra família da professora
Aqui vocês veem morar
E deixem o tempo passar
Sejam dela as defensoras.

27
E o tempo foi passando
E a princesinha crescendo
Tudo que lhes ensinavam
Com certeza ia aprendendo
Era por demais inteligente
Mas dos pais muito carente
Mudanças iam acontecendo.

28
Nada melhor que o tempo
Pra corrigir os defeitos
O ruim se torna bom
O torto fica perfeito
Tudo depende do trato
O gato amigo do rato
Com Deus pra tudo tem jeito.

29
Alguns anos se passaram
Um pouquinho mais que dez
Aquela menina tão feia
Recebia nota dez
Em inteligência e beleza
Era um anjo de pureza
Tinha todos aos seus pés.

30
Até o velho monarca
Que não a via há anos
Começou esbravejar
- Não quero ser leviano
Vocês trocaram a princesa
Disse; ela é uma camponesa
A minha foi com um cigano.

31
E quando as duas tutoras
Quiseram pra ele explicar
Ele demostrou muita ira
E quis fugir do lugar
Mas quando olhou a princesa
E notou sua tristeza 
Começou logo a chorar.

32
- Oh minha filha querida
Você tá bem diferente
Nem parece a menininha
Que eu deixei tão carente
Es uma bela mulher
Me diga o que você quiser
Que faço imediatamente.

33
Quero ficar por aqui
Até a maior idade
Aprendendo o que me falta
Para governar a cidade
Não quero ser a princesinha,
Pretendo ser uma Rainha
Para reinar de verdade.

34
Falo muitos idiomas
Por isso posso agregar
Expandir nossos domínios
Vamos ter que modificar
Dar aos pobres oportunidade
Pra crescerem de verdade
Pra enriquecer, prosperar.

35
O monarca então se afasta
E beija as mãos das tutoras
Transformaram minha filha
Na mais bela e sedutora
Moldaram nossa princesinha
Pra mais inteligente Rainha
Tanto ou mais que a genitora.

36
E quando o Rei vai embora
Ela relata para as amigas
Ultimamente eu sonho
Com algo que me intriga
É um lugar bem diferente
Onde mora pouca gente.
Mas vivem em eterna briga.

37
Tudo indica; em meu sonho
Ter um jovem prisioneiro
Acho que tem uma tutora
Mas lamenta o dia inteiro
Quero alguém pra decifrar
Quando o sonho eu contar
Quero isso bem ligeiro.

38
A mãe tutora responde
Eu nasci com esse dom
Revelo sonhos e medos
Acham isso muito bom
Vamos sentarmos as três
Conte o sonho de uma vez
Garanto que dou o ton.

39
Há mais de um mês o sonho
Pra mim vem do mesmo jeito
A paisagem é a mesma
Não muda nem um graveto
Numa floresta extensa
Uma família sem crença
Um filho cheio de defeito.

40
No último sonho aparece
Em cena uma senhora
Montando uma vassoura
Braba como uma caipora
Fazendo premonição
Provoca a desunião
Disse assim naquela hora.

41
Da próxima vez que alguém
Solicitar-lhes um abrigo
Se derem de bom coração
Se livrarão desse castigo
Guardem isso em segredo
E podem ficar sem medo
Não façam como comigo.

42
Então todas se calaram
Só a tutora então falou
Vamos falar com alguém
Pra ser nosso protetor
Chamá-lo-ei nesse instante
É um cavalheiro andante
Vai dar fim nesse terror.

43
A professora e mais eu
Temos algo a revelar
Nós somos as boas fadas
Viemos só pra te mostrar
Qual vai ser o teu futuro
Será o mais lindo e puro
E só vocês vão herdar.

44
Naquele exato momento 
Um mendigo apareceu
Na entrada da floresta
Onde tudo aconteceu
Há quinze anos atrás
Com aquele belo rapaz
Que ele quase pereceu.

45
- Bateu em frente a um umbral
E gritando: hour de casa!
Mas ninguém apareceu
- Estou queimando em brasa
Quero água, tenho cede
E se possível uma rede
Pois o meu cavalo morreu.

46
Um casal lhes abre a porta.
-  Quero somente guarida?
Se o casal pode me ajudar
Quero um prato de comida
Se podem me dar pousada
Saio na próxima madrugada
Pois vou ter missão cumprida.

47
Estão o casal se olha
Os dois tavam extasiados
Será ele essa a pessoa
Que a bruxa havia falado?
- Que quer o senhor de nós>
Por acaso é um algoz?
- Eu venho lá do passado.

48
Quinze anos se passaram
Que uma bruxa esteve aqui
E agora estamos de volta
Estamos aqui para definir
O futuro de seu filho
Catorze anos no exilio
Mas, comigo ele vai partir.

49
Levo também a senhora
Que é sua mãe tutora
Que só lhe ensinou o bem
A melhor das professoras
Ela e uma de nossas fadas
Que por nós foi designada
Pra ser dele a protetora.

50
Mandem trazer o rapaz
Aqui pra essa morada
Nós vamos ter que partir
Já na próxima madrugada
Vamos todos descansar
O transporte vai chegar
Bem antes da alvorada.

51
Podem ficar bem tranquilos
Antes de um ano ele volta
Chegará aqui bem casado
- Com quem será? Não importa
Eles estão predestinados
Tudo já está bem traçado
Não haverá mais revolta.

52
Quase as três da madrugada
Chega um transporte dourado
A força motriz, dois cavalos
Todos os dois eram alados
O Elmo, a Fada e o rapaz
Nem olharam para trás,
Parece que estarem atrasados.

53
Na velocidade de um raio
Aportaram na Carochinha
Quem os recebeu foram o Rei
Com sua filha e a Rainha
Princesa e o rapaz se olharam
Ambos estavam apaixonados
Pois a quimica eles já tinham.
54

Quem és meu caro mancebo; 
E o que vens tu fazer aqui?
- Venho de um lugar distante
A mão da Princesa pedir
Vim desposar sua filha
A princesa que mais brilha
E disso não vou fugir.

55
E a que Reino tu pertences?
- O reino do amor e da verdade
Reino onde se trabalha
Com bastante honestidade
Do reino dos homens fortes
Ninguém tem medo da morte
Praticamos a caridade.

56
De onde conheces a princesa?
- Tivemos o mesmo destino
Ficamos presos em masmorras
Desde os tempos de meninos
Por culpa de nossos pais 
Pois nos amavam demais
Quinze anos clandestinos.

57
Fomos criados sem pais
Em ambiente muito hostil
Perguntem para seus súditos
Se alguns deles já nos viu
Vocês só nos esconderam
Por medo ou por desespero
Criaram pra nós um covil.

58
Os monarcas então choraram
Pelos seus erros cometidos
Pediram perdão aos dois
Agora filhos queridos.
Os jovens ali se abraçaram
Juras de amor expressaram
Tudo tinha se invertido.

59
Então o Rei manda comprar
Todas as terras das cidades
As mais próximas da floresta
Como eles, onde a maldade
Sacrificaram seus filhos
Deixando-os ali no exilio
Só pra manter a vaidade.

60
No locas os jovens fundaram
o Reino da Boa Esperança
Seria um Reino novo
Onde reinaria a confiança
Na entrada principal
Estava escrito em um mural
QUEM ESPERA, SEMPRE ALCANÇA

61
Então os dois se casaram
Levaram consigo as fadas
Serias suas conselheiras
Durante toda a jornada
As três teriam o respeito
E aí de qualquer sujeito
Se alguma for molestada.

62
O Reino da Boa esperança
Cresceu muito e progrediu
Sobre a tutela dos jovens
Coisa igual nunca se viu
Os súditos estão satisfeitos
Neles não veem defeitos
E todo reino se expandiu.