quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

RATANABÁ A CIDADE PERDIDA

 

                                  NIVALDO MELO
1
Essa é mais uma história
Que hoje vou lhes contar,
Aconteceu aqui no Brasil,
Bem antes de Cabral chegar.
Só tinha praias e florestas,
Como mil ilhas desertas,
Mas muito tinha a mostrar. 
2
Imaginem nosso país
Que nem nome tinha ainda
Podia ser qualquer um
Como: Floresta Linda
Ou: Terra de praias formosas
Ou: Montanhas tenebrosas
Lugar que a chuva não finda. 
3
Vamos chamar essa terra
De: Cidade Encantada
Aquela que você acha tudo
Mas volta dela sem nada
Seus rios têm muitos peixes
Se você pesca os deixe
Do contrário tá lascada. 
4
Essa pode ser uma lenda
Ou apenas uma narrativa
Uma fábula, ou uma crença
Ou uma história ilustrativa
Mitologia, saga ou mito
Mas garanto que o escrito
É história real, criativa. 
5
Na nossa grande Amazonia
Nas terras inexploradas,
Ainda se encontra vestígios
De uma cidade encantada
Escondida nas montanhas
Local que o rio não banha
Mas que já foi encontrada. 
6
Nossa cidade encantada
Não é lenda, é bem real
Existe há milhões da anos
Do mundo era a capital
Realmente ela existe
Mas não fique muito triste
Lá só se vê o matagal. 
7
Está no centro do Brasil
Deram-lhe o nome Ratanabá
Significa “cidade Perdida”
Vou lhes dizer onde está
No encontro de três estados
Entre montanhas e lagos
Amazonas, Mato Grosso e Pará. 
8
Segundo muitos relatos
A cidade foi erguida
Por seres de outros planetas
E naquele local construída
Mas isso não dar pra provar
Quem foi não voltou de lá
De nossa “Cidade Perdida” 
9
Um verdadeiro paraíso
Muitas pedras preciosas
Esmeralda das mais raras
Diamantes cor-de-rosa
Rubi, Água Marinha, Âmbar
Citrino, nem tinha ouvido falar
Mas, Grafeno, a mais rentosa. 
10
Nós vamos agora enveredar
Na mente do cordelista
Ele pensa em criar vida
Para a cidade futurista
Criar alguns personagens
Com a cara e a coragem
Só na cabeça do artista. 
11
O Governo extra terrestre
Quis procurar um planeta
Que tivesse muitas arvores
Seguiram Halley,  o cometa
Foi em Saturno; desabitado
Vênus, gás pra todo lado
Disse: a Terra é a receita. 
12
Há cerca de dez anos luz
Avistam uma bolinha azul
Procurou uma constelação
Escolheu, Cruzeiro do Sul
De longe disse: Oceano
Outra vez, mais um engano
Chamá-lo-ei mundo Mur. 
13
Mur; na língua alienígena
Acho que significa mar
Muita água era demais
Pois não sabiam nadar
Então deram uma voltona
De longe viras a Amazonia
Aqui que nós vamos ficar. 
14
Pousaram a boca da noite
E começaram a marcação
Traçaram um mapa esquisito
Em um formato de mão
Mas eles só tinham três dedos
Pra eles não sentirem medo
Três Pirâmides era a solução. 
15
Mandaram então mensagens
Pra o governo de seu planeta
“Para vocês nos encontrarem
Sigam o Halley, o Cometa.
Depois do Cruzeiro do Sul,
De longe vão ver um Mur
Tragam consigo o Êta. 
16
Mandem a frota mais pesada
Pra construir nosso ninho
Tratores, guindastes, patrois
Vamos abrir um caminho
Para não dar nada errado
Vamos ficar camuflados
Tudo vai dar bem certinho. 
17
Enquanto eles esperavam
Pela chegada da frota
Construíram três pirâmides
Duas certas e uma torta
Uma baixa e duas altas
As duas reais a outra falsa
Não tem janelas e nem porta. 
18
Depois de trinta e sete anos
O que esperavam chegou
Trouxeram dois mil alienígenas
E o trabalho então começou.
Construiriam a grande Ratanabá
Entra o Amazonas e o Pará
O Êta, era o seu protetor. 
19
Agora vamos lhes revelar
O que de fato era o Êta
Um grande Dragão dourado
Nascido em seu planeta
Era a última geração
Filho do último Dragão
Ele nasceu sem gameta. 
20
O Êta seria o único
Dragão que aqui se viu
Há meio bilhão de anos
E nunca daqui partiu
Dizem que ainda está lá
Pra proteger Ratanabá
Do povo que aqui surgiu. 
21
Milhares de anos passaram
Na cidade da floresta
Sempre eles a construíam
Não tinham tempo pra festas
Seus lemas era trabalhar
Mas esqueceram de amar
Por isso só poucos resta. 
22
Durante séculos e séculos
Não pararam a construção
As maquinas foram quebrando
Substituíram-nas por mãos
Mas dentro daquele império
Alienígena também fica velho
Disso não tinham noção. 
23
Imaginem nosso Brasil
Sem ter um ser humano nato
Éramos um grande paraíso
Coberto por muito mato
Rios de águas bem claras
O que hoje é coisa rara
De alimento o mais farto. 
24
Depois de muito cansaço
Um casal se evadiu
Construíram uma canoa
E na noite escura, partiu
Aproveitaram uma Gamboa
Um na popa outro na proa
Ficaram ao sabor do rio. 
25
Outros e outros os seguiram
Sem rumos e sem destinos
Só que aqueles invasores
Eram seres pequeninos
Homens um metro e sessenta
Mulheres um e quarenta
Só queriam ter seus bambinos 
26
Por força de seus destinos
Um dia eles se encontraram
Formaram então grandes tribos
Dessa forma se agruparam
Esqueceram sua Ratanabá
Tinham o Tupã pra adorar
Dessa forma prosperaram. 
27
Os que fugiram de Ratanabá
Formaram grupos distintos
Por que fizeram desse jeito?
Por medo de serem extintos
Medo da grande vingança
Pois quebraram a aliança
Mas mantiveram os instintos. 
28
Os que escolheram o litoral
Chamariam Caiou’á (Guarani)
Que significa guerreiros
Isso eu posso garantir
Eram a defesa em barreira
Hábeis em criar trincheiras
Restam poucos por aqui. 
29
Os que escolheram a floresta
Se denominariam Tu-u’pi, (Tupi),
Que significa “Pai Supremo”
Também posso lhes garantir
Viviam de forma pacata
Defendiam a grande mata
Temos muitos por aqui. 
30
Tudo vem acontecendo
Desde sempre, e continua
Aceitem essas verdades
Pois elas são nuas e cruas
Mas se você não acredita
Pesquisem, livros e revistas
E criem também as suas. 
31
Sempre existiu a união
Entre os viajantes estelar
Vieram de outro mundo
Para aqui se instalar
Outros tiveram pouca sorte
Foram pra Amárica do Norte
Foram banidos por lá. 
32
Como viviam os alienígenas
Diferentes em estruturas
Segundo livros do assunto
Tinham excelente postura
Engenheiros e arquitetos
Falavam em muitos dialetos
Eram boas as criaturas.
33
O planeta de suas origens
Nem tem no mapa estelar
Se eles um dia existiram
Nem dar pra localizar
São planetas apagados
Escuros, não iluminados
Por isso fugiram de lá. 
34
Tudo eles escreveram
Nas pedras da construção
Dar pra escrever muitos livros
Quem encontrar a tradução
São figuras desconhecidas
E letras mal redigidas
Esfinge, monstro, dragão. 
35
Uma escrita muito estranha
Parecido com hieroglifo
Aquelas que encontraram
Nas pirâmides do Egito
Só bastante diferente
Escrita de traz pra frente
Tudo em pedra de granito. 
36
As paredes de duas pirâmides
São de pedras preciosas
Garimpadas com esmero
Apenas as mais porosas
Estão muito bem polidas
Que parecem que têm vida
De belezas glamurosas. 
37
No interior das duas
Paredes com muito ouro
Altares de mármores raros
Um verdadeiro tesouro
Muitas pratas e brilhantes
Seus pisos são de diamantes
No altar um grande besouro.
 
38
O Besouro é a entrada
De um túnel bem escavado
Tem dois metros de altura
Paredes de cada lado
Quilômetros de comprimento
No final um grande templo
Em um salão todo dourado. 
39
Isso é na terceira pirâmide
Que não tem portas ou janelas
Só existe um caminho
Para você chegar nela
Pelo túnel caminhar
Se conseguir chegar lá
Tem que enfrentar a sentinela. 
40
A sentinela é o Êta
O grande Dragão dourado
O guardião dos tesouros
Que ali estão guardados
Ouro, prata, diamantes
Peças raras, deslumbrantes
Riquezas pra todos os lados.
41
Quem conseguir chegar lá
E derrotar o Dragão
Herdará todo o tesouro
Será o rei da Nação
Nação chamada Ratanabá
Só o Rei que vai mandar
Em toda aquela imensidão. 
42
Se lembram, lá no começo
Falei da terra encantada,
Que lá você tem de tudo
Mas dali não leva nada?
É isso aí, minha gente
Ser Rei lá é diferente
Vai reinar, sem ter espada. 
43
Se conseguires a posse
De tudo que veio do espaço
Serás o mais rico da galáxia
É isso mesmo que eu acho
Mas se tentares de lá sair
Pode crer, vás sucumbir
Te jogando de um penhasco. 
44
Eu vou lhes dar umas dicas
Pra chegar em Ratanabá
- Encontrem um Chefe Tupi
O grande Cacique Magûe’á
Significa ser o elevado
E tem com ele guardado
O mapa pra chegar lá. 
45
Existe uma Carta Magna
Nas mãos de outro Cacique
Seu nome é muito conhecido
Está acampado em Buíque
É o grande chefe “Ka‘iki”
Que há anos pousou aqui
“Ave que voa” sem pique.
46
Você tendo em seu poder
A Carta Magna e o Mapa
Pegue seu equipamento
E se embrenhe na mata
Siga rios e cachoeiras
Suba os morros na carreira
Que um dia qualquer você acha. 
47
Tem um outro jeito fácil
Pra chegar em Ratanabá
Suba o rio Amazonas
Em direção ao Pará
Viaje durante o dia
Procure um índio pra guia
O melhor vou te indicar. 
48
Na tribo dos pigmeus
Procure por Bambuí 
É o Pigmeu mais ligeiro
Corre mais que um Saci
Quando você o procurar
Ela já não está mais lá
Amarre-o pra não fugir. 
49
Se conseguir encontrar
Esse pigmeu ligeiro
Esteja sempre a sua frente
Não o deixe chegar primeiro
Mas se isto te acontecer
Leve a bussola com você
Volte rápido, companheiro. 
50
Se ligue no modo mais rápido
Pra chegar lá, só de avião
Deves ter um paraquedas
Estude a sua localização
Observe bem a Longitude
Nunca esqueça a Latitude
Pra não ir na contra mão, 
51
Urandir Fernandes de Oliveira 
Se tornou o pai desse assunto
Hoje existe muita gente
Que faz juras de pés juntos
Se alguém já esteve por lá
Garanto e posso afirmar
Com certeza, hoje é defunto. 
52
Até o presidente Bolsonaro
Aquele que chamam mito
Mandou fazer averiguação
Só pra acabar com o conflito
Nada por lá foi comprovado
Portanto tá tudo errado
O caso é muito esquisito. 
53
Agora vem os problemas
Só pra provar o contrário
Há 450 milhões de anos
Não tinha nem Dinossauro
América e África um continente
Prestem atenção, minha gente
Não vamos posar de otários. 
54
Algumas cidades perdidas
Na nossa América do sul
A maioria dessas cidades
Se encontram no Peru
Bolívia e Colômbia têm
Até no Brasil também
A nossa é Kuhikugù. 
55
Existem cidades famosas
Para visitação de turistas
Cusco e Machu Picchu
Consideradas futuristas
Os Incas as construíram
Nas conquistas eles fugiram
São obras de grandes artistas. 
56
Chan Chan e Pachacámac.
Ambas também no Peru
São sítios arqueológicos
Em nossa América do Sul
Pachacámac em Lurim, Lima
A outra um pouco acima
Chan Chan, vale do Chimú. 
57
Aqui no Brasil, temos um sítio
O X11 que também é Kuhikugù.
Cidade Pr[C2] é- Colombiana
No parque indígena do Xingu
Um povo de cultura avançada
Que está quase dizimada
Por doenças vindas do sul. 
58
A fora nossos devaneios
O resto é pura verdade
Os poetas são mesmo assim
Mestres da criatividade
Nas cabeças do poeta
Transformar tragédia em festa
Faz isso, mas por vaidade. 
59
Estamos na penúltima estrofe
Desse cordel, tão bonito
Dei motivo pra pesquisas
Em tudo que está escrito
Me prestam muita atenção
Não fiquem na contramão
Pra não entrarem em conflito.
60
N ossa mente é tão fantástica
I sto, mais que um computador
V ai dar asas na imaginação
A o poeta, artista, e escritor
L iga fatos aos boatos
D iz que tudo está exato
O que escrevo, é puro amor.
x

sábado, 28 de setembro de 2024

O GRILO COR-DE-ROSA

 

                                         

                      NIVALDO MELO


1

Férias de final de ano,

Fomos passar na fazenda.

Essa história é bem hilária,

Espero que você entenda.

É a primeira história rural,

Bem longe da capital,

Vou lhes contar sem emenda.

 2

A fazenda de meu biso

Nosso vovô Manoel

Ele era conhecido

Como o último Coronel

Diziam já ter um século

Já tinha um tetraneto

O Vovô gosto de mel.

3

De voz mansa e delicada

Falava muito baixinho

Muitas vezes pra ouvi-lo

Chegávamos muito pertinho

Nessa hora ele gritava

E nem você esperava

Vá pra lá seu menininho!

 4

Com o susto você corria

Então o vovô resmungava

Ele está com medo do velho.

Era assim que ele brincava

Só tou querendo assustar

É jeito de velho brincar

E na hora ela gargalhava,

5

Pra nós era só alegria

Vê Coronel Manoel França

Rever os tempos de menino

E voltar a ser criança

Íamos com ele pescar

E no vê-lo ainda nadar

Nele tínhamos confiança.

6

O primeiro do outro lado

Tem de prêmio uma pataca

Era assim que ele chamava

As bezerrinhas das vacas

Quem não queria ganhar?

Só não conseguia levar

Pois eram pesada “paca”.

7

Era muito divertido

As férias lá na fazenda

Pela manhã bem cedinho

Já começava a contenda

Corríamos para o riacho

Comer banana do cacho

Ouvirmos histórias e lendas.

8

E quando chegava a noitinha

Tinha um lugar especial

Era um caramanchão

Construído lá no quintal

Em um formato circular

Com bancos para sentar

Pra nós era um arraial.

9

Primos e irmãos sentavam

Até o Coronal chagar

Quanto ele se aproximava

Era a hora de levantar

Ele ficava meio sem jeito

Dizia; isso é que é respeito

Mas todos podem sentar.

 

10

E durante toda a férias

A cada noite uma estória

Sempre tinha fatos novos

Que lhes vinha a memória

Um dia ele todo prosa

Hoje um grilo cor-de-rosa

Terá sua noite de gloria.

11

Pediu um copo de suco

E temperou a garganta

- Esse grilo que eu falo

Ele não trila só canta

Uma canção diferente

Dessas que prendem a gente

Quem a ouve se espanta. 

12

Fiquem todos em silencio

Fechem os olhos pra esperar

Pode demorar um pouco

Mas assim que ele chegar

Vai se fazer bem presente

E com certeza a gente

Vamos parar pra escutar. 

13

Passaram-se alguns segundos

Pra gente uma eternidade

Quando o biso fez psiu!

Está na hora da verdade

Então se ouve um som

Um pouco fora de ton.

Ninguém estava a vontade. 

14

O som foi se aproximando

E sobre a mesinha parou

Naquele exato momento

Todo mundo se espantou

Tinha um grilo cor-de-rosa

Sobre a mesa e todo prosa,

Na mesma hora cantou. 

15

Em uma linguagem estranha

Que ninguém ali entendia

Enquanto o grilo cantava

Nosso biso a traduzia

A letra era um tilintar

Que era voz dele falar

Só o nosso biso sabia. 

16

A letra daquela canção

Era mais ou menos assim

“Ser um grilo cor-de-rosa

Garanto que é muito ruim

Sou o único dessa cor

Me chamam grilo doutor

Ninguém acredita em mim”. 

17

“Quero pedir para todos

Por favor prestem atenção

Moro dentro de uma arvore

De dia não saio não

Tenho medo de predador

Por causa de minha cor

Não dar pra ser refeição”. 

18

“Gosto muito de crianças

Devido suas carências

Sou um grilo diferente

Estou em suas presenças

Estão todos estatelados

Me olhando admirados

Mostrando suas inocênciaS"

19

“Eu não sou desse país

Pertenço a outro rincão

Por isso o meu cantar

É de difícil compreensão

Eu venho lá do oriente

Da terra do sol nascente

Lugar chamado Japão” 

20

Olhávamos pra nosso biso

Com muita curiosidade

Será que estávamos vendo

Um grilo cantar de verdade?

Mas o biso apenas sorria

Como nós se divertia

Ali não tinha maldade. 

21

Ficamos por muito tempo

Admirando tudo aquilo

O Coronel nos alertou

Nunca toquem nesse grilo

Espero que me entenda

É a mascote da fazenda

Tá na placa em grande estilo.

22

Qual o nome dessa fazenda

Alguém pode me responder?

- Não é Fazenda do Mel?

- Está muito errado você.

Tem uma placa glamurosa

Fazenda do Grilo-de-rosa

Pensei que alguém sabia ler! 

23

Quando olhamos pra a mesa

O grilo havia sumido

O biso disse pra gente

- Depois de tanto alarido

O grilo ficou com medo

E partiu foi muito cedo

Pra ficar bem escondido. 

24

E vamos vê-lo novamente?

Amanhã ou depois, talvez

Queremos o grilo por aqui

Será surpresa pra vocês

Amanhã vamos voltar

E todos vamos apelar

Para velo outra vez. 

25

Eu, minha irmã, e os primos

Estávamos todos encafifados

Esperando que chegue a noite

Momento mais aguardado

Queríamos o grilo novamente

Pra deixar todos contentes

Passamos o dia amoitados. 

26

A tarde perguntamos ao biso

Será que hoje ele vem?

E velho fazendo gracinha

Nos pergunta. Ele quem?

O grilo!!! Ficou na memória

Será que ele conta histórias?

Vai nos contar, se as tem. 

27

Logo que a noite chegou

Corremos pra o caramanchão

A cozinheira então gritou

Vocês não vão janta não?

Meu tio deitado na rede

Tão sem fome, mas com cede

Cede de muita emoção. 

28

Éramos apenas crianças

Que morávamos na cidade

Qualquer coisa diferente

Pra gente era novidade

Principalmente no instante

Que vimos um grilo cantante

Pra todos nós, novidade. 

29

Voltamos pra casa grande

Sede da velha fazenda

Que pertencia a família

Um lugar cheio de lendas

Tinha horta, e pomar

Um rio pra gente pescar

Pra moer a cana, moenda.

30

No momento o que importava

Era a aparição do grilo

E ouvirmos ele se expressar

Cantando sem estribilho

Mas quando chegasse a hora

Íamos pedir uma história

Mesmo que fosse sem brilho. 

31

Mas para nossa frustação

Essa noite ele não chegou

Ficamos sem a presença

Do grilo e do bisavô

O velhinho foi dormir cedo

A gente ficou com medo

Até que vovó chegou. 

32

Fiquem tranquilos crianças

O Coronel tá cansado

Hoje foi um dia tenso

Dia de embarcar o gado

Como ele tem muita idade

Não ficou muito à-vontade

Por isso já está deitado. 

33

A vovó a dona Pérola

Filha do seu Manoel

Ela era a Mãe de meu pai

Que é neto do coronel

Todos da mesma família

E seguiam a mesma trilha

Cada um com seu papel. 

34

Vou contar para vocês

Sem entrar na contramão

Como o grilo chegou aqui

Dele só tem no Japão

Papai o trouxe de lá

Foi difícil de embarcar

Trouxe-o fechado na mão. 

35

Compro-o de um japonês

Que negociava insetos

Meu pai gostou do grilinho

E quis ter ele por perto

E logo que aqui chegou

Lá na arvore ele o soltou

Depois ele conta o resto. 

36

Mas se vocês quiserem

Eu lhes conto uma história.

- É claro que nós queremos!

Vai ser pra gente uma gloria

Ouvir a senhora nos contar

Alguma história espetacular

Pra nós mais uma vitória. 

37

Foi então que ela chamou

A velhinha cozinheira

Ela veio toda sorridente

Sentou em uma cadeira

- O que a senhora quer?

- Uma história, mulher!

Daquela bem verdadeira. 

38

E sem mais nenhuma delonga

A cozinheira começou.

Eu vou lhes contar a história

De alguém que aqui chegou

Há uns trinta anos atrás

Apareceu nos currais

Do jeito que ninguém notou. 

39

Em um dia bem cedinho

Quando fui buscar o leite

Encontrei o ordenheiro,

Sentado num tamborete

Falando não sei com quem

Procurei não vi ninguém

Ali naquele piquete. 

40

Fiquei só observando

Quem é que estava ali

Quando vi que nada tinha

Perguntei: quem está aí?

Uma voz me respondeu

Eu sou um amigo seu

E vim pra me divertir. 

41

Sou apenas um Curupira,

Estou aqui de passagem

Você tem bom coração

Vou mostrar minha imagem

E logo o mato de mexeu

E um menino apareceu

Poensei que era miragem. 

42

Estou aqui com uns amigos

Que podem lhe aparecer

Um é a mula sem cabeça,

O outro Saci Pererê

Temos também o Caipora

Que está chegando agora

Não vai dar pra você ver. 

43

Olhei para o ordenheiro

Que estava petrificado

Não dizia uma só palavra

Os olhos esbugalhados

Nem as pestanas batia

Olhava, mas nada via

Mas o chão todo molhado. 

44

Deu uma pausa na história

Então começamos a gritar

E o que a senhora fez?

- Eu procurei me sentar

Não adiantava correr

Nem ao menos se esconder

Sentei pra gente conversar. 

45

Então velho Papa figo

Mandou o seguinte recado

Avise pra sua garotada

Que esse lugar é sagrado

Se tomarem banho no rio

Escondam bem o pavio

Senão vão ser é capados. 

46

Estão todos nos olhamos

Não dava pra entender

Somente o primo Gustavo

Queria assim proceder

Tinha sido ontem a noite

Alguém gritou; não se afoite

Que você pode até morrer. 

47

Pensávamos que era mentira

O que falava a cozinheira

Ninguém poderia acreditar

Em toda aquela baboseira

Mas com o recado no final

Foi como um tiro letal

Gustavo sai na carreira. 

48

Cercamos a velha cozinheira

Com um milhão de perguntas

Como é que é o Caipora?

- Os seus pés nunca se juntam

Pois são totalmente tortos

Anda montado em um porco

Todos na mata ele assusta. 

49

E a Mula sem cabeça,

Como é que ela faz?

- Sua cabeça é de fogo

É horrível por demais.

Já nosso Saci Pererê.

Corre muito mais que você

Só com uma perna, rapaz. 

50

Então a mana muito curiosa

Pergunta: pelo Curupira

Tem os cabelos vermelhos

Arrepiados e em tiras

Anda na mata só a noite

Quando o vento é de açoite

Tem bengala de embira. 

51

E então naquela noite

Quase que ninguém dormiu

Com medo da assombração

Que e velha cozinheira viu

E com a mensagem mandada

A gente dava era risada

Só lembrando do paviu.. 

52

Pela manhã bem cedinho

Procuramos vô Manoel

Levaram para um hospital

Nosso ultimo coronel

Todo mundo preocupado

Pois nosso ator tá cansado

Taçvez seu ultimo papel. 

53

Todos fomos visita-lo

Sem choro ou pressentimento

Sabíamos que pra o centenário

Estava chegando o momento

Fez-me um gesto com a mão

Me indicando a direção

Mostrando-me um monumento. 

54

Essa esfinge Japonesa

Guarde-a com muito cuidado

Cuide dela bem direitinho

Em um lugar bem reservado

As chaves estão com seus pais

Só são três meu bom rapaz

E tudo vai ser revelado.

55

Só abram essa esfinge

Um mês depois que eu partir.

Na missa de trinta dias

Vou estar lá para assistir

Eu estarei ao seu lado

Pois vai ser muito engraçado

Na hora que ela se abrir. 

56

Dois dias após as férias,

O nosso bisavô partiu

Deixando toda família

Em estado pueril

Sem sabermos o que falar

Do Coronel mais popular

Que a gente um dia viu. 

57

Missa de trigésimo dia

Estávamos todos presentes

Apenas a velha cozinheira

Ficara em casa doente

Então vindo fundo da igreja

Alguém na sacristia solfeja

Uma música bem diferente. 

58

Era a música que ouvimos

Naquele caramanchão.

A músiuca do grilo cantante

Acelerou meu coração

Lembramo-nos do amuleto

Que levei colado ao peito

Como pediu o biso ancião. 

59

Estão pegamos as chaves

A esfinge logo foi aberta

Todos querendo saber

Tava parecendo festa

Surge um grilinho de corda

Pintado na cor de rosa

Trilando feito uma orquestra. 

60

Estava desvendado o segredo,

De toda aquela armação.

Perpetrada por nosso bisavô,

Que nos deixou se ação.

O velhinho nos enganou,

Com o brinquedo que comprou,

Em uma loja no Japão.